sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Noites de Cabíria - Federico Fellini

Entrei na locadora numa quinta-feira ansiosa por alugar mais um filme para eu poder sentir. Ao conversar com o atendente novo da locadora, ele me indicou 2 ou 3, de acordo com os diretores que eu citava. Dentre eles, ele me indicou 'Ladrões de Bicicleta' (1948, Vittorio De Sica), que será assunto com certeza para outro post, e eu disse que já havia assistido na semana passada. Assim, ele me entregou mais 2, e dentre eles estava: 'Noites de Cabíria', Federico Fellini (1957). Segurei o dvd nas mãos e pude enxergar na capa a caricatura de Cabíria, que me lembrou um personagem de desenho extremamente doce e um tanto cômico. Me fez sorrir. Aluguei.

Não me prolongarei ao contar a história de Cabíria, mas vale destacar que ela é uma prostituta ingênua, que leva uma vida simples, é boa, sonha com o amor verdadeiro e acredita nas pessoas. No seu caminho aparece o ator de cinema italiano, Alberto Lazzari, ela acha que essa será sua chance, que ele cuidará dela e a amará, mas se engana, ele volta com a linda namorada. Então conhece Oscar, depois de um show de hipnose em que ela é 'forçada' a participar. Ele se diz apaixonado, e a pede em casamento, agora sim, ela acha que tudo está indo bem e será feliz. Mas se enganou novamente, e... vocês terão que assistir a obra-prima para descobrir e contemplar o final intrigante, belo e humano.



'Noites de Cabíria', levou o Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz em Cannes para Giuletta Masina, mulher de Fellini na época, e que protagonizou outros filmes do diretor como, 'Julieta dos Espíritos' e 'A Estrada da Vida'.

O filme me emocionou, e mais ainda, Cabíria. Como não ficar encantado com aqueles olhos grandões, seu sorriso de lado, seus lábios recaídos, sombrancelhas cômicas, sua teimosia e doçura. A Cabíria durona e dançarina. A Cabíria cheia de esperanças, uma eterna otimista. Giuletta Masina absolutamente dá um show de interpretação.

Vale destacar a qualidade da imagem do filme para uma produção italiana dos anos 50.

Então, apaixonem-se por Cabíria.

Os enigmas, os prazeres e os terrores do universo infantil - Fanny e Alexander

Decidi sem hesitar, escrever algo sobre 'Fanny e Alexander' no primeiro post do blog sobre Cinema, já que me foi concedida a chance. O filme do diretor e dramaturgo Ingmar Bergman, de 1982, ganhou 4 Oscars, nas seguintes categorias: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, ganhou o BAFTA de Melhor Fotografia e o Prêmio FIPRESCI, no Festival de Veneza. E também, era o filme preferido de Bergman, o que me incentiva ainda mais a escrever.

Como poucos o diretor transcendeu a própria experiência cinematográfica, abordando temas inerentes a existência humana, como desejo, morte e religiosidade.
Em 'Fanny e Alexander', o cineasta faz um mergulho profundo na alma humana, com perfeccionismo e sutileza, refletindo sobre os enigmas, os prazeres e os terrores do universo infantil. Fanny (Pernilla Allwin) e Alexander (Bertil Guve) são dois irmãos muito unidos. No início do século XX, após o Natal, seu pai morre e o menino, passa a ver o fantasma do pai freqüentemente. Algum tempo depois, Emilie (Ewa Fröling), a sua mãe, casa-se com um homem extremamente rígido e religioso e a família abandona a casa da avó. As crianças são obrigadas a viver debaixo do julgo do padastro, e são tratadas como prisioneiras. Outras pessoas passam a ver o fantasma, até que a mãe descobre a verdade sobre o marido e o que acontece em sua casa, assim planeja um modo de sair dali e voltar para a casa da avó.

"A avó, uma atriz riquíssima, é uma personagem quase mítica, que habita o apartamento de baixo. Em toda casa há um mundo feminino que tudo domina. O teatro é um lugar onde as crianças brincam e procuram refúgio. O menino Alexander é, sem dúvida, um alter-ego de Bergman, experienciando o puritanismo hipócrita do pastor Vergerus (Jan Malmsipe), que vem a se tornar padrasto de Alexander, em contraponto aos prazeres mundanos que Alexander encontra nas saborosas refeições, no bom humor, na liberação, enfim, no bem viver da casa da avó. Vale ressaltar que o pai de Ingmar Bergman era pastor luterano, tendo castigado severamente o cineasta na infância."

http://www.letraselivros.com.br - Letras e Livros, Pr. Dr. Sílvio Medeiros. 13 de novembro de 2008.


Bergman resume "Fanny e Alexander" com essas belas palavras: "Penso nos meus tempos de menino com prazer e curiosidade (...) Minhas horas e meus dias viviam repletos de coisas interessantes, cenários inesperados, instantes mágicos. Ainda hoje posso percorrer a paisagem da minha infância e sentir de novo todo aquele passado de luzes, aromas, pessoas, aposentos, instantes, gestos, inflexões, vozes, objetos (...) O privilégio da infância é podermos transitar
livremente entre a magia da vida e os mingaus de aveia, entre um medo desmesurado e uma alegria sem limites (...) Eu sentia dificuldade para distinguir entre o que era imaginado e o que era real..."

"Alexander: Quem é está atrás da porta?
Voz: É Deus que está aqui, atrás da porta.
Alexander: E não pode avançar um pouco mais?
Voz: Nenhum ser vivo deve ver o rosto de Deus.
Alexander: E o que é que você quer de mim?
Voz: Quero apenas comprovar que eu existo.
Alexander: Fico-lhe muito agradecido. Obrigadinho.
Voz: Pra mim, você não passa de um grão de poeira sem importância nenhuma. Sabia disso?
Alexander: Não.
Voz: Aliás, você é muito mau para sua irmã e seus pais, descarado diante dos professores e está sempre com
pensamento ruins. Na realidade, não entendo por que é que eu deixo que você continue a viver, Alexander!
Alexander: Não?
Voz: O Sagrado! Alexander! (...) Deus é o mundo e o mundo é Deus. É muito simples.
Alexander: Eu peço muitas desculpas, mas se de fato é como você diz, então, eu também sou Deus!
Voz: Você não é Deus, de jeito nenhum. Você é apenas um pedacinho de merda, cheio de impertinência.
Alexander: Posso afirmar que sou menos impertinente que Deus..."
(Ingmar BERGMAN. Fanny e Alexander. RJ: Editorial Nórdica, 1985)

Ps:. A Versátil Dvds possui uma lista dos filmes de Bergman em DVD, sugiro que confiram nas locadoras. Por Lisys